Sabe, gente bonita e sem dente, tem muita coisa da minha viagem que eu queria contar aqui, mas sei que ao passar dos dias, tudo ficará fora do contexto, então não me resta outra alternativa senão contar agora.
É notável que estou falando dos podres da viagem, e não do dia que recebi o Prêmio de Imigrante Emérita, que diga-se de passagem, foi um saco, ou um sonho…não sei.
Tudo começou no aeroporto, antes de embarcar. Estávamos eu, meu pai, meu irmão, minha cunhada e a Carol (amiga-irmã-namorada-swingueira). Tinha uma fila imensa para fazer o check in das bagagens e eu estava com fome; então, enquanto todos ficavam na filinha por mim, eu corri até o Merd Donald´s com a Carol e traçamos um mega blaster merdlanche.
Voltamos, e era nossa vez de ficar na fila e deixar, pai, irmão e cunhada se alimentarem. Na fila, eu e a Carol ficamos fazendo rabiscos inteligíveis na minha mala, e depois ela descobriu que o creme dela estourou dentro da bolsa, enfim, até hoje o aeroporto sofre com o cheiro que lá permanecera.
Fiz o check in.
- O que? Aí está escrito Canadá??? Mas eu vou pro Japão!!! O__o
Eu não podia perder meus últimos minutos de graça no Brasil, mas o povo lá é muito sério, ou o cheiro do creme que afetou todo mundo, não sei.
Fato é que, chegava a hora de eu embarcar e minha família ainda estava jantando. Eu ligava freneticamente pro celular do bródi e nada. O que me consolava é que eu pelo menos tinha a Carol pra dar um abraço de despedida, e eu voticontá, ela é bem gostosa.
Eis que chega meu irmão e cunhada afobados:
- Tá indo já??? Bjotchau, chegou a pizza lá. O pai já vem.
E depois meu pai com a boca cheia e suja de molho:
- Tchau nené. Pizza Hut pepperoni massa grossa, precisamos pedir mais dessas lá em casa.
Entrei e quando olho pra trás, a Carol fazendo um tchau vergonha alheia total. O mais engraçado é que as pessoas se afastavam e eu tentava avisá-la: "É o cheiro do creme, feche-o, vá se limpar."; mas ela entendia: "Vou sentir saudades, te adoro, cuidado com o mar."
Na alfândega confiscaram meu cortador de unhas. Nem liguei. Antes ele do que a pinça.
Fernando 3 Pelos Torres
15 horas depois, chego no aeroporto de Vancouver, e foi a partir deste dia que desisti de acreditar nos filmes; ninguém segurava placa com meu nome. NINGUÉM!! Eu deveria pular esta parte que na verdade foi mais desesperadora do que cômica. Naquele momento eu só queria me chamar: Mohamed Ali.
No dia de Natal, fui jantar na casa de uma família típica canadense, amigos da minha hostmother, que na verdade é da Sérvia, e lá eu quebrei um copo. Mas não me deixei intimidar pelos olhares de reprovação, fui lá e quebrei uma taça. Expliquei que era tradição aqui no Brasil e ela ainda deixou eu usar a internet.
No ano novo eu fui à uma festa. O preço do convite foi 30 dólares, e ainda dava direito a 10 cervejas. Não tinha negócio mais lucrativo, eu juro, até porque já eram 7 horas da noite do dia 31 quando decidi o que faria. No Brasil já era 2006.
Eu fui, intercalei vodka com as 10 cervejas.
Minha cota de bebidas acabou, a música não agradava, então, eu consegui pegar um taxi e soletrar o meu endereço toscamente. Mas não consegui chegar no banheiro, queimei a largada e vomitei na minha lunch bag, que depois de devidamente lavada, sumiu. o__O
Se fosse igual a essa eu teria lamentado a perda, mas era de papel.
Eu me perdia em todos os pontos turísticos de Vancouver. TODOS! O intuito era ir ao Stanley Park, alugar uma bicicleta e ficar andando com o vento do Alasca batendo em meu rosto. Eu me perdi tanto pra achar onde se alugavam as benditas bikes, que quando achei, finalmente, as lojas estavam fechadas, não só elas mas o comércio local, os ônibus também não estavam funcionando e eu ainda tinha esquecido meu Nintendo DS em casa.
As pessoas esqueciam os guarda-chuvas ao meu lado; em pubs, restaurantes, ou até mesmo na escola. Os coreanos da minha sala cogitaram fazer uma vaquinha pra me dar um de presente. Eles falaram na língua deles, mas eu estava ligadinha.
Meus irmãos. Todos adotados.
Eu não penteava o cabelo quando acordava.
Um dia eu fiquei sozinha em casa e não dei uma festa.
Eu estava sentada esperando o busão e uma mulher me perguntou:
- Há quanto tempo você está aqui?
- Um mês
Quando na verdade ela se referia há quanto tempo eu esperava o busão.
Eu perdi: o cabo usb da minha câmera antiga, 500 minutos de ligação para o Brasil, um e-mail do Bol que eu não acessava à 7 anos, 1 dólar na máquina de refrigerante, uma promoção de aparelhos de DVD por 20 dólares e minha virgindade a oportunidade de divulgar meu blog na mesa de um pub.
Eu conheci pessoas incríveis, todos prometeram churrascos, encontros para relembrar, os mexicanos ofereceram descontos nos hotéis em Cancun, e eu ofereci uma fita com minha versão demo de Happy Together do The Turtles.
Apesar do frio que fazia lá, voltei de havaianas, pois eu já calçava 42. Realmente eu deveria ter discutido com os Agentes Federais que confiscaram meu cortador de unhas.
Por fim, fiquei devendo no Duty Free, mas comprei um creme novo pra Carol, só que inodoro.