In dubio pro post :: June :: 2006

POLÍTICA DA BOA VIZINHANÇA.

Morar em condomínio com outros seres como eu, metade humano e metade humano, requer paciência e discrição.

Notem que no meu prédio muitas pessoas se conhecem há anos luz. A velha chata do apto 32, que ninguém deixa mais participar da sindicância porque se baba inteira ao falar, viu o filho do casal empresarial do apto 91 nascer, hoje em dia o menino é conhecido como "Playboy Farinha" - por mim, claro - pois ele tá sempre cheirado.

A filha do casal do apto 51, após um namoro conturbado por causa da rixa entre famílias com esse negócio de estender roupa na sacada só porque bate um solzinho e deixa o prédio parecendo uma maloca, casou com o primo do boyzinho-eu-sou-chicleteiro-ôba-ôba do apto 82. As famílias se odeiam. Eu presenciei o dia em que os anfitriões ficavam se acusando acerca de um cheiro de peido horrível que estava no elevador.

Bom, se meu vizinho fosse meu parente eu seria, no mínino, deserdada e no máximo teria que casar com o primo mais lango-lango da família e colocar o nome de meus filhos de: Maria de Fátima, se fosse menina e Manoel, se fosse menino. Ô raça lusitana!

No dia da Pizzada, por exemplo, o interfone tocou 3 vezes pedindo silêncio, depois eu não sei se ligaram novamente porque eu tirei a merda do gancho. Mas é por isso que todo morador de condomínio deveria fazer Direito. Para saber que multa é ilegal, fere o princípio da ampla defesa e ainda para ter os argumentos certos na hora que levar uma.

- O que é isso?
- Um multa por fazer barulho excessivo naquela noite.
- Caraleo, não se pode mais meter em paz?
- Err…desculpe.

Então, em meio à essa corrente pra frente, Brasil rumo ao hexa; os moradores andam se reunindo para assistir os jogos lá na churrasqueira, aproveitaram o ensejo do mês de junho e estão combinando uma Festa Junina, isso sem mencionar a Festa do Hawai, Festa de Fim de Ano e CARALEO, existe até a Festa de Aniversário do Prédio.

Eu nem tinha conhecimento que alguém sabia meu nome neste lugar. No entanto, há duas semanas a porra do porteiro me liga direto para que eu confirme presença nos eventos.

Da primeira vez eu ri. Da segunda me fingi de morta e hoje, pela terceira vez, eu abri o jogo:

- Seu Flávio, eu não gosto das pessoas que habitam esse condomínio.
- Ah, Lhilhá, não ziga una cosa dessi.
- É sério. Vão fazer o que? Riscar meu carro?
- Bishdtu anhé agiundande sysforcaf.
- É isso ae véi, não entendi nada!

*desliga*

Porteiros têm um dialeto próprio que desconheço, infelizmente. Deve ser por isso que deles eu gosto bastante.


Eu pegaria, hein

Posted: June 20, 2006 Comments (0)

UM SONHO SE RENOVA… E ENVELHECE EM SEGUIDA.

Após uma noitada no karaokê dias atrás com as pessoas agradáveis de sempre, surgiu um boato de que eu cantava bem, era blogueira por opção e só fiz Faculdade de Direito pra pagar meia no cinema.

É foda você querer seguir pela vida musical sem encontrar influências em pessoas importantes, como por exemplo: os pais. Minha mãe cantava pacaraleo, mas fazia eu ouvir Fábio Junior ao me levar pra escola; meu pai, por outro lado, aprendeu o "lá" ontem. O véio tá fazendo aulas de violão há uma semana. E eu só fui me dar conta do sumiço da minha viola hoje. Agora só falta minha avó ligar e pedir uma gaita de Natal.

Porra, e eu? Nunca perguntaram o que eu queria fazer e não teria talento o suficiente pra ser.

Eu queria cantar, pra valer.

- Ei, alguém me leva no Raul Gil?

Mas eu lembro que já quis ser baterista também. Antes de saber da teoria que Alê, Gabi e eu, certa vez discutimos acompanhadas de err…cervejas. No caso, o baterista é aquele que fica com as mulheres que o vocalista não quis pegar, mas no fundo ele ama a mulher do guitarrista. Fora isso eu também não tinha aquilo que chamam de pinto "dom", nem tempo para aprender, nem dinheiro para o instrumento e muito menos uma Kombi para passear com ele.

Enfim, sem influências significantes, sem alguém que me escutasse quanto à participar de um show de calouros e não levasse na brincadeira, sem dinheiro, sem dom, sem um puto de um amigo que me convidasse como backing vocal de banda, nem que fosse de reggae só pra gritar Jah ao fundo. Eu não me importaria. Acho.

Então, quando o sonho já tá ladeira abaixo, na iminência da curva, o garçom desce mais uma cerveja, conversas no msn tornam-se mais sérias que de costume, pensamentos aleatórios em uma noite fria paulistana esquentam, episódios da Mulher Maravilha já nem têm a importância politica que deveria e até mesmo quando o banho é mais longo; vejo um clipe no Canal Sony e lá estava ela: Rachael Yamagata.

É o nome da minha nova queridinha no cenário pop-rock, fuckin´-folk, no-theme-music, even-a-dog-can-do-it-emo-punk-new-metal-hardcore-so-rock mundial, ou qualquer merda bytemaníaca. E assim, reconsiderando todas as minhas expectativas e já sabendo que elas continuarão não realizadas, posso desabafar: eu quero cantar e compor como Rachael Yamagata.

E agora eu vou lá a procura de um fazendeiro, insistir para que ele invista na minha pessoa em detrimento das cabeças de gado. Casar, ter filhos, viver na fazenda e montar uma loja de compotas de doce de leite na beira de estrada, logo após o fracasso do casamento, afinal, eu fugi só pra realizar meu sonho de cantar como Rachael, e me deparei com a maior platéia que já tive. Tratava-se de um Festival para Caminhoneiros.

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