Pena que seus filhos sempre estavam atrasados. O menino se trocava antes de sentar à mesa e derrubava achocolatado na roupa limpa. Ela nem ligava.
A menina enchia o copo de leite. Só tomava metade, cortava o queijo, esquecia lá e corria pro banheiro. Afinal, era o único no apartamento e estava vazio. A menina sempre demorava mais pra se arrumar. Ficaria o dia inteiro se ela não batesse na porta: Filha, vai se atrasar.
Naquele dia ela viu o encarte do mercado que costumava ir. Então, logo após arrumar a mesa do café que ainda esperava pelo seu marido, ela enfiou o encarte na bolsa, pegou o carro e foi até lá.
Outra coisa que ela adorava, o supermercado. Não que isso seja característica de uma dona de casa, porque ela não era só isso. Ela era dona, mãe, esposa, empresária, a tia mais adorada, a irmã mais querida, e a filha mais exemplar.
Encheu o carrinho e ainda no caixa ela chamou um rapaz uniformizado que passava.
- Oi, eu recebi este encarte hoje de manhã com o meu jornal. E aqui diz que este CD, lançamento, está R$9,90.
- É, ta errado, minha senhora.
- Sim, deve estar, mas vou levá-lo por este preço, né?
- É…hmmm, vou chamar o gerente.
Assim o gerente veio, vendeu o CD pelo preço do encarte, sem dicussão do jeito que ela gostava, e então ele mandou recolher todos os outros até o final da promoção anunciada.
Foi pra empresa trabalhar, com o marido. E quando chegou tinha uma cadela desnutrida e abandonada na frente, onde havia uma praça. Pegou, levou no veterinário, deu um nome. A "Fly" tem 7 anos.
Já em casa ela preparou o almoço pros filhos que iam chegar. Em seguida levou a menina pro inglês, ficou esperando a aula acabar. Uma hora e meia, enquanto lia os livros que aquela deveria ler pro vestibular. Memórias Póstumas, talvez. Afinal, ela adorava Machado de Assis.
No fim da tarde passou na empresa pra aquecer sua recém cadelinha e voltou pro lar. Fez a janta, assistiu o Jornal, a novela e depois que a filha, há 3 horas no telefone, resolveu sentar perto dela, ela disse:
- Filha, hoje comprei o CD do Elvis Presley. Adoro.
É, essa era minha mãe e ela simplesmente não odiava nada.
Eu já odeio todos os segundos domingos de maio, … e filas de banco, cheiro de cecê no metrô, pô, muitas coisas.